terça-feira, 3 de março de 2015

O machismo do dia a dia

     Sobre o caso não surpreendente das declarações feitas pelo Alexandre Frota no programa do Rafinha Bastos e a reação da plateia. Esses três personagens (a: Alexandre Frota; b: Rafinha Bastos (mídia); e c: Plateia), por isso digo que não me surpreendo com as declarações, porém a naturalidade que a questão do estupro é tratada e não criminalizada sempre me surpreende. Culpa-se a vitima, a mulher e a ridicularização da mesma é feita de uma forma monstruosa e que, para alguns que se dizem comediantes, faz parte para quem tem humor. O que sempre me surpreende é a falta de empatia de um ser humano para com o outro e da falta de sensibilidade cada vez mais marcante nessa sociedade. E aí vem a famosa pergunta, pra que precisamos do feminismo?
Eis aqui nesse exemplo, que é apenas um, acreditem, apenas um exemplo de muitos (incontáveis) que existem diariamente e não temos conhecimento. Mas nesse exemplo podemos perceber algumas características fundamentais da nossa sociedade e da necessidade crescente de uma ideologia feminista que transforme radicalmente essas características. Características essas que destacamos no caso o machismo, o racismo, a falta de empatia e sensibilidade. 
     O machismo, podemos destacar como sua característica o patriarcado sistema cultural, político, econômico e social que atinge a todos. Entendendo aqui que ser homem e mulher, como explica a filosofa e professora Márcia Tiburi, é uma construção cultural. E nesta cultura a opressão da mulher é algo natural, desde colocar o papel da mulher em segundo plano como o fazem as religiões, até subjugar economicamente, socialmente e culturalmente. Assim, nesse sistema temos a dominação do ser "homem" sobre o ser "mulher". Não entraremos na discussão mais profunda da construção de identidades por falta de conhecimento do que vos escreve, ainda em continuo aprendizado sobre o tema. Portanto, nessa sociedade a mulher é oprimida em todas as esferas possíveis, quando analisa-se qualquer gráfico seja econômico - como por exemplo o nível salarial; social - como por exemplo a taxa de violência sexual - dentre outros percebemos a nítida diferença existente entre ser homem e ser mulher. Fora os gráficos o dia a dia mostra a imensa diferença que é para um homem e uma mulher andar sozinho em uma rua a noite, andar de ônibus, andar na rua e dentro da própria casa. Ser homem e ser mulher define em grande parte as expectativas da sua família ou mesmo as aspirações que você terá, mesmo que isso venha mudando aos poucos e com muito esforço. 
     Dito isto observamos no fato narrado pelo ex-ator Alexandre Frota uma cena de abuso sexual, um estupro. Enquanto narra a cena o mesmo da risadas e ao fim é aplaudido, e ao mesmo tempo se escuta gargalhadas vindas da plateia, pelo apresentador do programa Rafinha Bastos e a plateia. Aqui alguns pontos são cruciais, o ex-ator narra o estupro de uma mãe-de-santo, um símbolo ou alguém importante dentro de uma religião de matriz africana. O narrador da questão dá detalhes de como o estupro ocorreu sem consentimento algum e da violência que chegou a fazer a vitima desmaiar. Aqui podemos destacar a opressão de um homem sobre uma mulher de forma a tirá-la o poder de escolha do que fazer e de possuir o corpo da mesma sem consentimento algum. E o inacreditável são as risadas e palmas, o êxtase com que o narrador e agente Alexandre Frota sente ao narrar tal crime.
     Destacamos aqui que para todo esse sistema político, econômico, social e cultural do machismo continuar ele tem bases muito sólidas na sociedade e apoio de uma boa parte da sociedade consciente ou inconscientemente. Assim entra aqui o papel do agitador e "humorista" Rafinha Bastos e da mídia. Porque a mídia é um dos mais fortes poderes sociais, capaz de apoiar ou não, construir e desconstruir, legitimar ou deslegitimar pensamentos e ideias com um potencial incrível. Assim, a mídia tem a capacidade direta de influenciar e formar opiniões sociais de massa. Quando coloquei uma busca simples pelo nome do ex-ator Alexandre Frota na primeira página apareceram os grandes portais de notícia - "uol" e "terra"; apareceram ainda o portal "ig"; e o portal "pragmatismopolítico" e "brasil247". Desses portais os dois primeiros colocam o título da matéria como - "suposto estupro"; o "ig" coloca a explicação do ex-ator como sendo uma piada e os dois últimos mais críticos colocam como "narração de crime hediondo". Daí podemos destacar que os grandes portais de noticias e a grande mídia já tende a descriminalizar a ação e amenizar a situação mesmo que seja uma piada, enquanto que o canal "ig" da novamente a voz ao agente e o mesmo diz ser uma piada que deu mais certo na televisão do que no teatro onde já havia tentado contar a mesma piada anteriormente. Logo percebe-se que a tendência da mídia é deslegitimar os ataques que inundaram a internet com revoltas de como se narra algo desse tipo e se debocha com gargalhadas e palmas?! Portanto, aqui fica claro que a mídia como meio de poder tem seu papel de garantir a continuidade da ideologia dominante e de manter o papel da mulher em ultimo plano. Destacando aqui claro o papel da emissora que proporcionou o episódio e deu voz a um criminoso mostrando assim diretamente como apóia tais comportamentos. 
     Não bastando o fato de se narrar um estupro de uma mulher por um homem o ex-ator faz questão de caracteriza-la como mãe de santo mostrando ainda que o fato se torna mais preconceituoso ao debochar das religiões de matriz africana com o papel que as mães-de-santo exercem em suas religiões. Será que caracteriza-la como mãe-de-santo e mostrar a aproximação por trás e a cena de faze-la desmaiar de tanto apertar seu pescoço tornou o episódio mais hilário pro narrador, apresentador e pra plateia? 
     A plateia aqui tem o papel que geralmente é ditado pela emissora, porém se ver tal reação do público é assustador. E se pensarmos será que é muito diferente no dia a dia? Quantos casos de violência não se vê e são minimizados e incrimina-se a vítima? Até onde a plateia mostra o que a sociedade faz em sua maioria no dia a dia?
     O que me assusta é a capacidade que os seres humanos tem tido cada vez mais de não ter empatia, porque aqui nota-se essa brutal realidade. Quem em sã consciência assistiria a mãe, irmã ou alguma amiga ser estuprada e depois aplaudiria? A grande questão é que os seres humanos tem se distanciado cada vez mais um dos outros ao ponto de não conseguirem se enxergar um no outro o que gera a falta de empatia, a falta de capacidade de se colocar no lugar de quem sofre a ação. Essa narração desse fato me fez lembrar de alguns textos que já li de vitimas de estupro, escritas e narradas por quem sofreu o estupro, o que me choca é alguém conseguir rir disso.
    Pode ser que esse seja mais um texto sobre um problema sem importância, como caracterizou o episódio o narrador ao se defender no portal ig. Porém aceitar comportamentos tão brutais e irracionais em uma época que tem se conseguido avançar a passos lentos nos direitos femininos é um retrocesso. Ter uma mídia machista, racista, homofóbica e preconceituosa como essa apoiando tais coisas já basta. Isso é mais um motivo pelo qual as pessoas tem que buscar mais informações e estudar mais sobre tantas coisas que as cercam diariamente, o feminismo, o machismo, a homofobia, o racismo, a democratização da mídia. Esta ultima fundamental para uma mudança radical da sociedade, já que a mesma tem o papel de formar opiniões nada mais necessário para mudar opiniões e comportamentos como o do caso acima do que democratizar a mídia e a mesma a partir daí começar a cumprir o papel de informar e formar opiniões na sociedade.


Links recomendados:

Entrevista com Márcia Buriti sobre o papel da mulher - https://www.youtube.com/watch?v=xgnj6wv3tfE

Texto sobre o feminismo extenso, porém muito completo - http://www.papodehomem.com.br/feminismo/

Portais de notícias destacados -

Pragmatismo Político - http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/alexandre-frota-confessa-um-crime-em-rede-nacional.html

Uol - http://televisao.uol.com.br/noticias/redacao/2015/03/02/alexandre-frota-narra-suposto-estupro-na-tv-e-e-criticado-nas-redes-sociais.htm

Terra - http://diversao.terra.com.br/tv/alexandre-frota-narra-suposto-estupro-na-tv-e-e-criticado,caaad2a239bdb410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

Ig - http://gente.ig.com.br/tvenovela/2015-03-02/alexandre-frota-explica-historia-polemica-com-mae-de-santo-e-piada.html

Brasil247 - http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/171719/Aos-risos-Alexandre-Frota-confessa-crime-hediondo.htm

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Poesia Diária - João Cabral de Melo Neto - O relógio

                                                     O Relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guara;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emitem um canto,
de uma tal continuidade

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Contranarciso - Paulo Leminski - Poesia Diária

Contranarciso - Paulo Leminski

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro 
que há em mim
é você
você
e você

assim como 
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós